12 maio 2010

A Sibéria Virtual

Escute: Teitur Louis Louis

Em um sábado frio de um mês de inverno, como uma brasa quente de carvão no meio do gelo, chegou um email teu, estava lá na minha caixa de entrada com as letras em negrito e o envelope amarelo fechado. Primeiro achei que fosse vírus, depois pensei que podia ser uma daquelas correntes que havia sido enviada por engano; mas não, o email era pra mim mesma, como um pedido de paz ou algo similar, e de repente enquanto lia o email, por coincidência ou não, teu nick que há muito estava esquecido na Sibéria virtual, ficou online (totalmente verde).

A brasa começava a derreter a neve que havia cercado nossa convivência por tanto tempo, quase um ano sem trocar uma música, sem compartilhar textos, livros, sites, filmes, bandas novas. As nossas bagagens estavam escondidas no armário do esquecimento abarrotadas de informações para dividirmos. Pouco a pouco fomos partilhando todas as novidades dos nossos interesses em comum.

De repente o gelo começa a virar água, e a frase “Senti Saudades” surge na tela, em itálico, negrito e vermelho, do meu lado as palavras digitadas ficam pressas ao teclado por algum tempo. Até que o choque do inesperado passa e confusa entre a maquiagem que iria usar e os sapatos que estava calçando, respondi um “Eu tb”, em rosa, sem negrito ou itálico.

Enquanto íamos derretendo o gelo com as frases digitadas, as boas lembranças, fugitivas, iam voltando uma a uma através da tela de 8 polegadas em cada nova sentença lida, e apesar da vontade gêmea de ficar em casa e terminar de derreter aquele gelo, eu tinha uma festa para ir, vida real, amigas esperando, musica e gente nova para conhecer. Despedimos-nos e cada um seguiu com seu sábado conforme havia planejado, apesar daquele encontro inusitado.

A cumplicidade, a dependência, a conexão e o timming, antes amigos tão íntimos de nos dois, agora voltavam correndo como passageiros com medo de perder o trem. E apesar de uns dias falar mais e outros menos, nessa semana os passageiros ocuparam seus lugares e andaram no nosso trem por várias horas, mesmo quando nao recebia emails ou o teu nick ficava offline por mais de um dia, não havia perigo para nossos amigos íntimos, afinal o trem continuaria andando quando tu voltasse.

No sábado seguinte, outra mensagem voltou a deixar as minhas palavras pressas no teclado, de novo em vermelho, itálico e negrito no fundo branco dizia: “to aqui, vamos nos ver hoje?”, o medo e o coração pulsavam fortemente dentro de mim, e em rosa sem itálico ou negrito respondi “Ok, mas traz o vinho”.

Até o minuto que antecedeu o abrir a porta, meu coração passou por várias taquicardias e o meu telefone marcou varias vezes o teu número para cancelar aquele encontro, o inconsciente gritava o mais alto que podia: É UM ERRO, É UM ERRO – VEJO LÁGRIMAS, mas o volume mais alto do superego é inaudível ao meu alter-ego.

Após vários goles de vinhos, risadas e olhares cúmplices, a revelação: “Eu ainda estou namorando”, quase silencioso, dito no meio dos dentes, mas ainda perceptível e com a capacidade letal de várias flechadas, estas com ponta de vidro e lançadas em direção ao meu peito a medida em que as palavras eram ditas, elas entravam uma a uma, cravando-se em um espaço familiar que há muito não visitavam.

A brasa, que já havia derretido todo o gelo aquela altura, com a revelação se apagou completamente. O carvão voltou a ser preto. E assim como o carvão também voltei ao meu estágio inicial, totalmente confusa, as idéias e perguntas estourando na minha cabeça como milho no azeite quente, mas inerte o suficiente pra não conseguir abrir a panela e colocar aquelas perguntas pra fora.

Entre risos amarelos, pernas tremulas, corações apertados e dúvidas borbulhantes nos despedimos, aquele sábado poderia ter sido o mais quente do ano, mas independente da estação, ele conseguiu ir além do outono do hemisfério sul foi direto para o inverno glacial da Sibéria. Fechamos as portas das nossas vidas e seguimos cada um com a sua.

Nossos amigos íntimos (cumplicidade, dependência, conexão e timming,) desceram finalmente do nosso trem e provavelmente embarcaram em outro contigo no qual eu não estou. Escuto as musicas que trocamos, reviso meus emails e fico a espera que teu bonequinho apareça nem que seja ausente, mas é em vão teus emails tem outra destinatária, as músicas tocam na minha casa e não na tua, e o teu bonequinho tomou Doril.

A única visita que desde então recebo no meu msn intimo é do Superego, com a mensagem gigante: EU TE AVISEI.